Em literatura, o ressentimento é mais eficiente que a
imaginação – é o sal que tempera a gosto o laconismo, o raciocínio, até mesmo a
lírica. Um escritor que desconhece decepções é uma estátua que a tempestade não
aperfeiçoou com o chicote renitente das estações. Acabo de perder mais um
concurso literário. Coleciono este tipo de derrota há anos. Não que esta
coleção emita, para mim, qualquer juízo de valor acerca do que escrevo. São
dezesseis anos escrevendo quase que diariamente, sob o ruído sigiloso das noites,
até que do papel recenda o aroma sombrio da cinza fria. Não. Conheço com
exatidão minha envergadura, e sei o ponto exato do qual me relaciono com a
literatura contemporânea. No mais, é muito fácil inventar culpados e odiá-los.
Nada disso. Estou velho demais para as ilusões. Todos têm boas desculpas na
ponta da língua tanto para a derrota quanto para a vitória e, no fundo, ninguém
merece vencer nada, nunca, pois, no limite, a vitória é uma masturbação para
autistas. O escritor é só um cavalo no deserto, que esfrega o focinho nas
pedras, buscando, em vão, um gerânio escuro para mastigar. Antes eu pensava até
em suicídio, agora, a ideia me parece tão ridícula e retrógrada quanto a de
seguir vivendo. Não chafurdarei mais nesse tipo de lixo romântico. Deixo a
escolha entre vida e morte para Deus, que, afinal, tem poder suficiente para
tomar todas as decisões erradas que invariavelmente acaba tomando de fato.
Escrevo para reter, com as unhas que me restam, a alegria que me sobrou. Para
me demorar nas coisas sem gastá-las, ainda que, agindo assim, gaste a mim
mesmo. Não preciso do aval de ninguém para seguir escrevendo. Precisava do
dinheiro do concurso. Um bom dinheiro, aliás. Agora terei que resolver tudo com
meus agiotas. Os vivos me importam cada vez menos. Importam-me William
Faulkner, Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura. Vou escrever
até o fim, até que a literatura seja um espelho voltado para a parede. Suporto
qualquer tipo de emprego desgraçado que me ofereça o mínimo (William Faulkner,
Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura) para seguir escrevendo.
Suporto conviver com quaisquer ignorantes, facínoras, analfabetos, pederastas,
assassinos de velhinhas, vadias que não sabem andar em um salto agulha e
gerentes operacionais, para continuar escrevendo. No mais, estou me lixando
para o Marco Feliciano, a redução da maioridade penal, os direitos civis das
minorias, a androginia do Laerte, a cultura do estupro, ou as criancinhas que
passam fome à beira do Cururu-Mirim. Só a literatura me interessa. Só me
interessa escrever, e escrever para me acalmar. Assim como estou mais calmo, agora.