15.5.13

SETE PALMOS DEBAIXO DO CÉU

Tadeu Sarmento


Em literatura, o ressentimento é mais eficiente que a imaginação – é o sal que tempera a gosto o laconismo, o raciocínio, até mesmo a lírica. Um escritor que desconhece decepções é uma estátua que a tempestade não aperfeiçoou com o chicote renitente das estações. Acabo de perder mais um concurso literário. Coleciono este tipo de derrota há anos. Não que esta coleção emita, para mim, qualquer juízo de valor acerca do que escrevo. São dezesseis anos escrevendo quase que diariamente, sob o ruído sigiloso das noites, até que do papel recenda o aroma sombrio da cinza fria. Não. Conheço com exatidão minha envergadura, e sei o ponto exato do qual me relaciono com a literatura contemporânea. No mais, é muito fácil inventar culpados e odiá-los. Nada disso. Estou velho demais para as ilusões. Todos têm boas desculpas na ponta da língua tanto para a derrota quanto para a vitória e, no fundo, ninguém merece vencer nada, nunca, pois, no limite, a vitória é uma masturbação para autistas. O escritor é só um cavalo no deserto, que esfrega o focinho nas pedras, buscando, em vão, um gerânio escuro para mastigar. Antes eu pensava até em suicídio, agora, a ideia me parece tão ridícula e retrógrada quanto a de seguir vivendo. Não chafurdarei mais nesse tipo de lixo romântico. Deixo a escolha entre vida e morte para Deus, que, afinal, tem poder suficiente para tomar todas as decisões erradas que invariavelmente acaba tomando de fato. Escrevo para reter, com as unhas que me restam, a alegria que me sobrou. Para me demorar nas coisas sem gastá-las, ainda que, agindo assim, gaste a mim mesmo. Não preciso do aval de ninguém para seguir escrevendo. Precisava do dinheiro do concurso. Um bom dinheiro, aliás. Agora terei que resolver tudo com meus agiotas. Os vivos me importam cada vez menos. Importam-me William Faulkner, Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura. Vou escrever até o fim, até que a literatura seja um espelho voltado para a parede. Suporto qualquer tipo de emprego desgraçado que me ofereça o mínimo (William Faulkner, Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura) para seguir escrevendo. Suporto conviver com quaisquer ignorantes, facínoras, analfabetos, pederastas, assassinos de velhinhas, vadias que não sabem andar em um salto agulha e gerentes operacionais, para continuar escrevendo. No mais, estou me lixando para o Marco Feliciano, a redução da maioridade penal, os direitos civis das minorias, a androginia do Laerte, a cultura do estupro, ou as criancinhas que passam fome à beira do Cururu-Mirim. Só a literatura me interessa. Só me interessa escrever, e escrever para me acalmar. Assim como estou mais calmo, agora.