12.5.13

AS IF WRITING A LETTER TO SELF

Ismar Tirelli Neto


– Como você acorda?
O primeiro arranco de um corcel da linha 184.
À medida do azul, os pássaros cada vez mais veementes.
Lamenta distante a sirene discoidal.
– E o teu veneno?
Plax.
Sarro de noite sobre os móveis, os poemas.
Mas isto fará ternura depois.
Pôs-se uma estrela no meu olho preguiçoso.
– Você conseguiria descrever esse quarto sem
recorrer a escatologias?
Dificilmente. Havia aqui um objeto de altíssimo relevo,
uma edição de bolso das Confissões de Santo Agostinho.
Conseguia pressenti-la de todos os cantos da casa. Mas
tive que devolver para a Adriana, estava fazendo falta.
– Cantando sempre?
Deus proíba. Os vizinhos se revoltam.
Como poderiam saber (que estou no princípio de algo,
algo que não pode ser vivido em silêncio, algo que
precisa soar enquanto é queda)?
Cantando sempre, sim.
Mas isto fará ternura depois.
– Você está sozinho aí dentro?
Todas as respostas acima.
– Como você acorda?
Ao que parece, estou escrevendo sua biografia.
(maio, 2010)