28.5.13

PAISAGEM VOANDO PARA O ORGASMO

Leonardo Fróes


Trens sonolentos resfolegam
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destapam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara a nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o gato canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
de nossa servidão cotidiana.

15.5.13

SETE PALMOS DEBAIXO DO CÉU

Tadeu Sarmento


Em literatura, o ressentimento é mais eficiente que a imaginação – é o sal que tempera a gosto o laconismo, o raciocínio, até mesmo a lírica. Um escritor que desconhece decepções é uma estátua que a tempestade não aperfeiçoou com o chicote renitente das estações. Acabo de perder mais um concurso literário. Coleciono este tipo de derrota há anos. Não que esta coleção emita, para mim, qualquer juízo de valor acerca do que escrevo. São dezesseis anos escrevendo quase que diariamente, sob o ruído sigiloso das noites, até que do papel recenda o aroma sombrio da cinza fria. Não. Conheço com exatidão minha envergadura, e sei o ponto exato do qual me relaciono com a literatura contemporânea. No mais, é muito fácil inventar culpados e odiá-los. Nada disso. Estou velho demais para as ilusões. Todos têm boas desculpas na ponta da língua tanto para a derrota quanto para a vitória e, no fundo, ninguém merece vencer nada, nunca, pois, no limite, a vitória é uma masturbação para autistas. O escritor é só um cavalo no deserto, que esfrega o focinho nas pedras, buscando, em vão, um gerânio escuro para mastigar. Antes eu pensava até em suicídio, agora, a ideia me parece tão ridícula e retrógrada quanto a de seguir vivendo. Não chafurdarei mais nesse tipo de lixo romântico. Deixo a escolha entre vida e morte para Deus, que, afinal, tem poder suficiente para tomar todas as decisões erradas que invariavelmente acaba tomando de fato. Escrevo para reter, com as unhas que me restam, a alegria que me sobrou. Para me demorar nas coisas sem gastá-las, ainda que, agindo assim, gaste a mim mesmo. Não preciso do aval de ninguém para seguir escrevendo. Precisava do dinheiro do concurso. Um bom dinheiro, aliás. Agora terei que resolver tudo com meus agiotas. Os vivos me importam cada vez menos. Importam-me William Faulkner, Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura. Vou escrever até o fim, até que a literatura seja um espelho voltado para a parede. Suporto qualquer tipo de emprego desgraçado que me ofereça o mínimo (William Faulkner, Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura) para seguir escrevendo. Suporto conviver com quaisquer ignorantes, facínoras, analfabetos, pederastas, assassinos de velhinhas, vadias que não sabem andar em um salto agulha e gerentes operacionais, para continuar escrevendo. No mais, estou me lixando para o Marco Feliciano, a redução da maioridade penal, os direitos civis das minorias, a androginia do Laerte, a cultura do estupro, ou as criancinhas que passam fome à beira do Cururu-Mirim. Só a literatura me interessa. Só me interessa escrever, e escrever para me acalmar. Assim como estou mais calmo, agora.

14.5.13

PEIXE JÚLIA

Leonardo Marona


julia bicalho mendes, você é meu peixe boi,
você é meu peixe espada, você deve furar a bolha
e engolir, pois não há problema engolir um pouco,
o esgoto do mundo que é o que dá velocidade
e presença às nossas dores e alegrias terrenas,
o que faz as pessoas crerem que nos divertimos
ou que nos fechamos, como disse o seu pai,
porque o mundo é muito grande, mas não é tudo,
estamos suspensos por uma vontade de flutuar
um pouco sobre as lâminas de nossos pulmões,
portanto fure a bolha, meu peixe macio, meu girino
de coração ventoso, espie belo buraco da fechadura
e então sente o pé na porta, afine as serpentes do cu,
jogue-se porque jogar-se é para nós, que carregamos
o coração em cadeiras de rodas rumo a China Town.
não se esqueça, meu peixe martelo, de que os ventos
sempre sopram ao largo quando a casa é de passagem.



12.5.13

AS IF WRITING A LETTER TO SELF

Ismar Tirelli Neto


– Como você acorda?
O primeiro arranco de um corcel da linha 184.
À medida do azul, os pássaros cada vez mais veementes.
Lamenta distante a sirene discoidal.
– E o teu veneno?
Plax.
Sarro de noite sobre os móveis, os poemas.
Mas isto fará ternura depois.
Pôs-se uma estrela no meu olho preguiçoso.
– Você conseguiria descrever esse quarto sem
recorrer a escatologias?
Dificilmente. Havia aqui um objeto de altíssimo relevo,
uma edição de bolso das Confissões de Santo Agostinho.
Conseguia pressenti-la de todos os cantos da casa. Mas
tive que devolver para a Adriana, estava fazendo falta.
– Cantando sempre?
Deus proíba. Os vizinhos se revoltam.
Como poderiam saber (que estou no princípio de algo,
algo que não pode ser vivido em silêncio, algo que
precisa soar enquanto é queda)?
Cantando sempre, sim.
Mas isto fará ternura depois.
– Você está sozinho aí dentro?
Todas as respostas acima.
– Como você acorda?
Ao que parece, estou escrevendo sua biografia.
(maio, 2010)

BRUCE NAUMAN: ART MAKE-UP (1967)


8.5.13

RISCO

Janina Daou


Se o teto cair e me carimbar no chão deste lugar, tornará fóssil gerações de cimento.
Se o remédio de nome mais feio estranhar a peculiaridade multicelular dos seus órgãos, presos da caverna dos sentidos.
Se os dias desistirem das vinte e quatro horas, renunciarão às semanas em nome da impossibilidade de qualquer calendário, guia espiritual de um futuro promissor.

5.5.13

MORTE AO MEIO-DIA

Rui Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.

3.5.13

CARTA AO(S) AMIGO(S)

Kátia Mello


zé,
hoje eu patinei no gelo. pela primeira vez. achava um pouco cafona no brasil, aqueles ringues de shopping, mas, de cafonice em cafonice, deixei de fazer um monte de coisa. cantava beatles ou algo do tipo em karokês – me sinto realmente ridícula por isso. devia ter cantado A majestade o Sabiá, Evidências, Pão de Mel, algum pagode brega dos anos 90. devia ter sido mais idiota. a gente tem um desespero tão louco pra ser adulto, isso começa na puberdade e, qdo vc é adulto de verdade, com rugas, problemas na coluna, dedos amarelos de nicotina e uma pilha de contas pra pagar, é um pouco dolorido enxergar q vc desperdiçou a chance de ser plenamente idiota qdo a vida te deu essa chance. mas nunca é tarde e não acho q não valha mais a pena ser babaca daquele jeito bonitinho. eu sou ingênua, eu sou por demais esperta, mas eu sou tão ingênua e antes isso me irritava, mas agora convivo bem com a ideia de q o mundo não precisa de mais maldade. a maldade, essa maldição de um milhão de gerações, aquela q dói na alma; tentemos combatê-la. quero ser idiota, precisamente idiota. quero tirar fotos fazendo careta e quero me perder, quero dar risada das desgraças. pq, de desgraça em desgraça, a gente se torna o q é. tem gente q se torna um desgraçado, inapto à graça do mundo, tem gente q se torna a própria graça. quero ser a própria graça.
patinar no gelo não é como andar na terra molhada depois da chuva ou comer fruta madura do pé, patinar no gelo não tem nada de bucólico pra mim, mas é o q temos pra hoje. e é divertido – não apenas patinar no gelo, mas enxergar a beleza de cada passo q a gente dá.
neste exato momento, se é possível descrever e compartilhar a sensação, vejo a vida tão gigante e tão linda e meu peito aperta. não faço a menor ideia de onde vem o aperto no peito, uma sensação ruim de má notícia, e ela tromba com o contentamento infinito q enche meu coração agora.
o mundo fica tão gigante qdo vc sai de casa. eu saí de casa duas vezes, a primeira qdo deixei monte alto e a segunda qdo deixei o brasil. mas perder casa foi uma vez só: qdo minha mãe morreu. não ter para quem voltar é a maior de todas as solidões. a vida tira, mas a vida dá. a gente toda aprende isso um dia.
eu tenho uma busca, zé, e ela diz respeito ao meu espírito. é terrível viver longe de quem a gente ama – mas o amor é tanto q a gente sabe q sempre vai poder voltar. pq os próprios amores passam a ser o nosso lar. e o mundo é tão grande, tão bonito, não faz sentido se fechar numa cidade só.
nada disso faz sentido, eu sei. mas o lance é q a vida está daora não porque alcançou a plenitude, mas pq agora eu tenho uma consciência limpa e indestrutível sobre a existência. e o q eu posso falar pra você sobre isso (q é apenas o q eu enxergo, um fragmento parcial e subjetivo da minha própria evolução) é q todos nós temos um espírito e q cada espírito está sujeito a uma série de aprendizados milimetricamente moldados sob medida, numa matemática passível de caber em derivadas. a gente tem q passar por divisões, subtrações, multiplicações e somas em busca do resultado. não devemos agredir ou evitar o sofrimento, devemos entender pra q ele serve. resolver conta por conta, uma a uma, sem pressa de calculadora ou preguiça de largá-la pela metade na descoberta de uma função.
foi vc quem lançou luz sobre essa questão perguntando, um dia, pq eu estava me submetendo a isso, por que eu parecia estar me purgando mudando pra cá. não estou me purgando. estou apenas resolvendo umas questões matemáticas da existência. e, a cada função q eu resolvo, me sinto mais feliz com o q vai ser o resultado dessa derivada. pq, de derivada em derivada, a gente chega a uma integral. e a integral é a parte q a vida atinge a plenitude.
a pressa de viver passou. a gente quer muito e quer pra ontem. isso só gera ansiedade. e a vida é feita de patinar no gelo. de ler um livro q esmaga seu coração como num acidente. de fazer um amigo seu parar de chorar ou de dividir um copo de cerveja e experiências de vida. de aprender a fazer pão só pra poder comer quentinho. de ouvir um som q só pode ser inspiração divina. de visitar lagos sulfurosos. de sentir saudade e ter certeza q tudo vai passar: a paisagem, a glória, a baía, o beco. o q eu vejo é horizonte.
muito amor,
k.

2.5.13

UM BEIJO

Ana Cristina Cesar


que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor.