Kátia Mello
zé,
hoje eu patinei no gelo. pela primeira vez. achava um pouco
cafona no brasil, aqueles ringues de shopping, mas, de cafonice em cafonice,
deixei de fazer um monte de coisa. cantava beatles ou algo do tipo em karokês –
me sinto realmente ridícula por isso. devia ter cantado A majestade o Sabiá,
Evidências, Pão de Mel, algum pagode brega dos anos 90. devia ter sido mais
idiota. a gente tem um desespero tão louco pra ser adulto, isso começa na
puberdade e, qdo vc é adulto de verdade, com rugas, problemas na coluna, dedos
amarelos de nicotina e uma pilha de contas pra pagar, é um pouco dolorido
enxergar q vc desperdiçou a chance de ser plenamente idiota qdo a vida te deu
essa chance. mas nunca é tarde e não acho q não valha mais a pena ser babaca
daquele jeito bonitinho. eu sou ingênua, eu sou por demais esperta, mas eu sou
tão ingênua e antes isso me irritava, mas agora convivo bem com a ideia de q o
mundo não precisa de mais maldade. a maldade, essa maldição de um milhão de
gerações, aquela q dói na alma; tentemos combatê-la. quero ser idiota,
precisamente idiota. quero tirar fotos fazendo careta e quero me perder, quero
dar risada das desgraças. pq, de desgraça em desgraça, a gente se torna o q é.
tem gente q se torna um desgraçado, inapto à graça do mundo, tem gente q se
torna a própria graça. quero ser a própria graça.
patinar no gelo não é como andar na terra molhada depois da
chuva ou comer fruta madura do pé, patinar no gelo não tem nada de bucólico pra
mim, mas é o q temos pra hoje. e é divertido – não apenas patinar no gelo, mas
enxergar a beleza de cada passo q a gente dá.
neste exato momento, se é possível descrever e compartilhar a
sensação, vejo a vida tão gigante e tão linda e meu peito aperta. não faço a
menor ideia de onde vem o aperto no peito, uma sensação ruim de má notícia, e
ela tromba com o contentamento infinito q enche meu coração agora.
o mundo fica tão gigante qdo vc sai de casa. eu saí de casa
duas vezes, a primeira qdo deixei monte alto e a segunda qdo deixei o brasil.
mas perder casa foi uma vez só: qdo minha mãe morreu. não ter para quem voltar
é a maior de todas as solidões. a vida tira, mas a vida dá. a gente toda
aprende isso um dia.
eu tenho uma busca, zé, e ela diz respeito ao meu espírito. é
terrível viver longe de quem a gente ama – mas o amor é tanto q a gente sabe q
sempre vai poder voltar. pq os próprios amores passam a ser o nosso lar. e o
mundo é tão grande, tão bonito, não faz sentido se fechar numa cidade só.
nada disso faz sentido, eu sei. mas o lance é q a vida está
daora não porque alcançou a plenitude, mas pq agora eu tenho uma consciência
limpa e indestrutível sobre a existência. e o q eu posso falar pra você sobre
isso (q é apenas o q eu enxergo, um fragmento parcial e subjetivo da minha
própria evolução) é q todos nós temos um espírito e q cada espírito está
sujeito a uma série de aprendizados milimetricamente moldados sob medida, numa
matemática passível de caber em derivadas. a gente tem q passar por divisões,
subtrações, multiplicações e somas em busca do resultado. não devemos agredir
ou evitar o sofrimento, devemos entender pra q ele serve. resolver conta por
conta, uma a uma, sem pressa de calculadora ou preguiça de largá-la pela metade
na descoberta de uma função.
foi vc quem lançou luz sobre essa questão perguntando, um
dia, pq eu estava me submetendo a isso, por que eu parecia estar me purgando
mudando pra cá. não estou me purgando. estou apenas resolvendo umas questões
matemáticas da existência. e, a cada função q eu resolvo, me sinto mais feliz
com o q vai ser o resultado dessa derivada. pq, de derivada em derivada, a
gente chega a uma integral. e a integral é a parte q a vida atinge a plenitude.
a pressa de viver passou. a gente quer muito e quer pra
ontem. isso só gera ansiedade. e a vida é feita de patinar no gelo. de ler um
livro q esmaga seu coração como num acidente. de fazer um amigo seu parar de
chorar ou de dividir um copo de cerveja e experiências de vida. de aprender a
fazer pão só pra poder comer quentinho. de ouvir um som q só pode ser
inspiração divina. de visitar lagos sulfurosos. de sentir saudade e ter certeza
q tudo vai passar: a paisagem, a glória, a baía, o beco. o q eu vejo é
horizonte.
muito amor,
k.