Começa com a amiga baterista que tem 4 bandas e dá carona até
o metrô contando histórias irresistíveis e de repente um palco com uma negona e três negões de pedir
em casamento. Que baixista. Que baterista. Bateristas que tocam de boca aberta
com a baba eventualmente escorrendo = amor. Entra japonês magrinho com um baixo
e vocoder. Negona veste óculos perolados e um cinto sadomaso sublime. Entram eletrônicos, bom também. Então borbulha
um gás e entra a banda Abolição e Dom Salvador, sorrindo. E Toni Tornado de camisa prateada canta Podscrê Amizades e *Um Quilo do Bom*, homenagem ao Sebastião. E chora. Plateia suada grudada e feliz. Na saída chuva e revezamento
solidário de guarda-chuvas. O ônibus enche de pessoas animadas gritando e
apitando, recém-saídas do Villa Country. Ao meu lado para um homem com
mochilinha do Grêmio
F.C. e guarda-chuva. Pergunto se ele quer que eu segure para
ele a mochilinha (estou sentada), ele aceita, agradece, diz que o guarda-chuva
não precisa porque está molhado e começa a reclamar “desse bando de maloqueiro buzinando no nosso
ouvido justo essa hora“. É tarde, ele trabalhou o dia todo, está
cansado, vencido, com pés molhados, em pé no busão e tanta raiva que não
consegue aturar a gritaria da alegria alheia, vai despejando palavrões, pesares
e dores e quando olho para cima para vê-lo sem dizer nada percebo que vem
pulando uma lágrima violenta. Ficamos em silêncio, constrangidos. Quando todos
descem, ao mesmo tempo, na Praça Ramos, ele pega de volta a mochilinha porque
já vagou cadeira e envergonhado me pede desculpas. Dou tchau, salto e ando mais
meia hora de chuva pensando nos dois negões que vi chorar na mesma noite, Toni
Tornado e o homem da mochilinha do Grêmio, um de emoção e o outro de
cansaço, tudo no meio de tanto sorriso. E amanhã tem mais, mesmo com o mundo acabando.