Este é um texto sobre o “delay” do universo. O atraso
nas respostas que precisas ter para viver dignamente. Um sim ou um não, uma
senha, aprovado ou reprovado no teste. Um chamado para um teste, ao menos. Você
acorda cedo com mil planos, abre o email, visita os sites de sempre e encontra
neles mil opções. Alguém te deixou uma mensagem para que faças um telefonema,
respondes, você liga, ninguém atende. Ou atende e fica de te mandar um email
especificando um trabalho para que possas executar mas as informações nunca
chegam. Tu precisas alterar a interface de um ambiente virtual porém não
recebes a senha. Marcam encontros contigo, chegas na hora marcada e esperas 70
minutos até descobrir que ninguém vem. Gente que cobra é um pé no saco mas é
sempre determinação que esperam de ti. “A vida está difícil para todos então
não se pode reclamar, insista”. E fazes mais telefonemas, disparas emails,
mensagens sem resposta. Se passaste a madrugada acordada e o sono é teu
maior inimigo às 7:30h, a cafeína ingerida desde as 8h quase te transforma em
um herói da Marvel às 11:30h. Corres pra descarregar a ansiedade em uma
modalidade esportiva na academia mais próxima. Voltas exausta e revês tuas
mensagens. Um contato qualquer na rede social te pergunta se está tudo bem, diz
que está correndo contra o tempo para entregar algum trabalho antes de sair
para o almoço procrastinado, respondes que acabaste de chegar do treino e estás
procurando uma atividade remunerada para executar. “Chegou da academia agora,
não tem que ir trabalhar... Vida boa, hein...” “Não! Está beirando o desespero
mas desculpa te incomodar aí, estás tão ocupado, não quero te atrasar. Um
beijo.” O dia continua, as horas se arrastam e a vida não para, apesar do quase
nada em que te encontras. Você não sabe se tem um emprego, se tem um amor, se
deve continuar procurando ou se já encontrou e esqueceram de te comunicar.
Verás mais um filme, escutarás outras músicas, tentarás mais contatos, até que
te empurrem de vez da beirinha do precipício. E talvez o fundo seja mesmo a
única forma de parar essa queda lenta e nauseante.