24.4.13

DA ESPERA

Ingrid Bezerra


Este é um texto sobre o “delay” do universo. O atraso nas respostas que precisas ter para viver dignamente. Um sim ou um não, uma senha, aprovado ou reprovado no teste. Um chamado para um teste, ao menos. Você acorda cedo com mil planos, abre o email, visita os sites de sempre e encontra neles mil opções. Alguém te deixou uma mensagem para que faças um telefonema, respondes, você liga, ninguém atende. Ou atende e fica de te mandar um email especificando um trabalho para que possas executar mas as informações nunca chegam. Tu precisas alterar a interface de um ambiente virtual porém não recebes a senha. Marcam encontros contigo, chegas na hora marcada e esperas 70 minutos até descobrir que ninguém vem. Gente que cobra é um pé no saco mas é sempre determinação que esperam de ti. “A vida está difícil para todos então não se pode reclamar, insista”. E fazes mais telefonemas, disparas emails, mensagens sem resposta.  Se passaste a madrugada acordada e o sono é teu maior inimigo às 7:30h, a cafeína ingerida desde as 8h quase te transforma em um herói da Marvel às 11:30h. Corres pra descarregar a ansiedade em uma modalidade esportiva na academia mais próxima. Voltas exausta e revês tuas mensagens. Um contato qualquer na rede social te pergunta se está tudo bem, diz que está correndo contra o tempo para entregar algum trabalho antes de sair para o almoço procrastinado, respondes que acabaste de chegar do treino e estás procurando uma atividade remunerada para executar. “Chegou da academia agora, não tem que ir trabalhar... Vida boa, hein...” “Não! Está beirando o desespero mas desculpa te incomodar aí, estás tão ocupado, não quero te atrasar. Um beijo.” O dia continua, as horas se arrastam e a vida não para, apesar do quase nada em que te encontras. Você não sabe se tem um emprego, se tem um amor, se deve continuar procurando ou se já encontrou e esqueceram de te comunicar. Verás mais um filme, escutarás outras músicas, tentarás mais contatos, até que te empurrem de vez da beirinha do precipício. E talvez o fundo seja mesmo a única forma de parar essa queda lenta e nauseante.