28.4.13

NUBLU JAZZ FESTIVAL NOITE #2

Ana Paula Anderson


Começa com a amiga baterista que tem 4 bandas e dá carona até o metrô contando histórias irresistíveis e de repente um palco com uma negona e três negões de pedir em casamento. Que baixista. Que baterista. Bateristas que tocam de boca aberta com a baba eventualmente escorrendo = amor. Entra japonês magrinho com um baixo e vocoder. Negona veste óculos perolados e um cinto sadomaso sublime. Entram eletrônicos, bom também. Então borbulha um gás e entra a banda Abolição e Dom Salvador, sorrindo. E Toni Tornado de camisa prateada canta Podscrê Amizades e *Um Quilo do Bom*, homenagem ao Sebastião. E chora. Plateia suada grudada e feliz. Na saída chuva e revezamento solidário de guarda-chuvas. O ônibus enche de pessoas animadas gritando e apitando, recém-saídas do Villa Country. Ao meu lado para um homem com mochilinha do Grêmio F.C. e guarda-chuva. Pergunto se ele quer que eu segure para ele a mochilinha (estou sentada), ele aceita, agradece, diz que o guarda-chuva não precisa porque está molhado e começa a reclamar “desse bando de maloqueiro buzinando no nosso ouvido justo essa hora“. É tarde, ele trabalhou o dia todo, está cansado, vencido, com pés molhados, em pé no busão e tanta raiva que não consegue aturar a gritaria da alegria alheia, vai despejando palavrões, pesares e dores e quando olho para cima para vê-lo sem dizer nada percebo que vem pulando uma lágrima violenta. Ficamos em silêncio, constrangidos. Quando todos descem, ao mesmo tempo, na Praça Ramos, ele pega de volta a mochilinha porque já vagou cadeira e envergonhado me pede desculpas. Dou tchau, salto e ando mais meia hora de chuva pensando nos dois negões que vi chorar na mesma noite, Toni Tornado e o homem da mochilinha do Grêmio, um de emoção e o outro de cansaço, tudo no meio de tanto sorriso. E amanhã tem mais, mesmo com o mundo acabando. 

26.4.13

FUR

Matilde Campilho


                                           com cara de Whitman
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer, sempre usando
o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso

foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn

você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black n' Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black n’ Decker enfiado no cinto.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.

só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.


25.4.13

PAIXÃO, MORTE E 1a APARIÇÃO DE FRANKENSTEIN

Alberto Pimenta

como se sabe: frankenstein foi preso por denúncia,
já perto da fronteira leste, coisa de meia ho
ra a pé, apenas. foi revistado, farejado pelos cães,
algemado e depois transportado e apresentado à na
ção no decurso do telejornal. acusado de semear o
terror, frankenstein foi condenado por toda a nação,
embora não tenha chegado a ser condenado por um
tribunal regular. enquanto o julgamento era prepa
rado, frankenstein foi metido numa daquelas celas
hermeticamente isoladas, todas pintadas de branco
e perpetuamente mergulhada no silêncio e numa tez
artificial; celas donde um tipo como eu ou tu só
sai com os pés para a frente, ou então de pé, mas
nesse caso com a cabeça mole como fruta do chão.
frankenstein no entanto era um tipo mais forte que
eu ou tu. frankenstein aguentou dois anos de pri
são preventiva, sem um canário sequer que lhe fi
zesse companhia, pois as leis desta nação só permi
tem aos presos a companhia de um canário depois de
dois anos de bom comportamento. acerca do compor
tamento de frankenstein nada sei. a nação e o seu
jornal sabem tudo acerca do comportamento de fran
kenstein. e sabem também como frankenstein morreu.
eu não sei como frankenstein morreu. mas a nação
e o seu jornal (a « sua imagem ») sabem como frankenstein morreu.
corre agora o boato que o colapso do antigo
chefe da polícia foi causado pela aparição de fran
kenstein. mas quem garante que assim tenha sido?
bom, um tipo como frankenstein talvez. mas um tipo
como eu e tu que chances tem de aparecer depois
de morto? não, um tipo como eu e tu não sei que
chances tem depois de morto, para dizer a verdade, nesta nação
nem sei que chances tem depois de vivo, um tipo
como eu e tu, de resto era isso que frankenstein
não se cansava de dizer, todo o tempo, todo o tempo.

24.4.13

DA ESPERA

Ingrid Bezerra


Este é um texto sobre o “delay” do universo. O atraso nas respostas que precisas ter para viver dignamente. Um sim ou um não, uma senha, aprovado ou reprovado no teste. Um chamado para um teste, ao menos. Você acorda cedo com mil planos, abre o email, visita os sites de sempre e encontra neles mil opções. Alguém te deixou uma mensagem para que faças um telefonema, respondes, você liga, ninguém atende. Ou atende e fica de te mandar um email especificando um trabalho para que possas executar mas as informações nunca chegam. Tu precisas alterar a interface de um ambiente virtual porém não recebes a senha. Marcam encontros contigo, chegas na hora marcada e esperas 70 minutos até descobrir que ninguém vem. Gente que cobra é um pé no saco mas é sempre determinação que esperam de ti. “A vida está difícil para todos então não se pode reclamar, insista”. E fazes mais telefonemas, disparas emails, mensagens sem resposta.  Se passaste a madrugada acordada e o sono é teu maior inimigo às 7:30h, a cafeína ingerida desde as 8h quase te transforma em um herói da Marvel às 11:30h. Corres pra descarregar a ansiedade em uma modalidade esportiva na academia mais próxima. Voltas exausta e revês tuas mensagens. Um contato qualquer na rede social te pergunta se está tudo bem, diz que está correndo contra o tempo para entregar algum trabalho antes de sair para o almoço procrastinado, respondes que acabaste de chegar do treino e estás procurando uma atividade remunerada para executar. “Chegou da academia agora, não tem que ir trabalhar... Vida boa, hein...” “Não! Está beirando o desespero mas desculpa te incomodar aí, estás tão ocupado, não quero te atrasar. Um beijo.” O dia continua, as horas se arrastam e a vida não para, apesar do quase nada em que te encontras. Você não sabe se tem um emprego, se tem um amor, se deve continuar procurando ou se já encontrou e esqueceram de te comunicar. Verás mais um filme, escutarás outras músicas, tentarás mais contatos, até que te empurrem de vez da beirinha do precipício. E talvez o fundo seja mesmo a única forma de parar essa queda lenta e nauseante.

23.4.13

NARRAÇÃO DE UM HOMEM EM MAIO


Herberto Helder
Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atraves-
sado pelo movimento.
É a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
A própria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores ou bichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo a boca, mexo os dedos, mexo a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão e harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60