Fábio Weintraub
do qual só restasse a trave
sem assentos
suspensos por corrente
sem crianças oscilando
de pernas abertas
em meio a risos e gritos
nem adultos
atrás empurrando
para frente
para o alto
cada vez mais
longe
mais forte
até o
crânio aberto entre cascalhos e bem-te-vis
16.7.13
12.7.13
LEATHER
Antônio LaCarne
todas as bruxarias que você construiu
despencam sobre o meu jeans culpado de tudo,
desabotoei a camisa & me pus sobre travessas de inox
tão verticais quanto o beijo que você morde & assopra,
aí sou a pessoa ferida mais legal do mundo,
nego a violência & as páginas de ménage à trois na internet,
mantenho o carão diante dos arbustos que você cuspiu,
o girassol de uma mão que me afaga as lágrimas,
rasgação de amor que não me protege das rugas,
os centímetros que fariam de mim
a pessoa mais sexualizada do universo.
peço um cigarro e você não tem,
eu percorro a existência da noite & me tranco em banheiros,
do bolso possuo as armadilhas lindinhas
que se resumem em uma, duas gramas da lucidez
pré-fabricada pouco depois dos dinossauros,
você também não me esquece,
critica o fato dessa intolerância esquizoafetiva
ser publicamente devorada nos livros que você não escreveu,
por isso morro de vontade.
28.5.13
PAISAGEM VOANDO PARA O ORGASMO
Leonardo Fróes
Trens sonolentos resfolegam
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destapam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara a nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o gato canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
de nossa servidão cotidiana.
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destapam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara a nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o gato canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
de nossa servidão cotidiana.
15.5.13
SETE PALMOS DEBAIXO DO CÉU
Tadeu Sarmento
Em literatura, o ressentimento é mais eficiente que a
imaginação – é o sal que tempera a gosto o laconismo, o raciocínio, até mesmo a
lírica. Um escritor que desconhece decepções é uma estátua que a tempestade não
aperfeiçoou com o chicote renitente das estações. Acabo de perder mais um
concurso literário. Coleciono este tipo de derrota há anos. Não que esta
coleção emita, para mim, qualquer juízo de valor acerca do que escrevo. São
dezesseis anos escrevendo quase que diariamente, sob o ruído sigiloso das noites,
até que do papel recenda o aroma sombrio da cinza fria. Não. Conheço com
exatidão minha envergadura, e sei o ponto exato do qual me relaciono com a
literatura contemporânea. No mais, é muito fácil inventar culpados e odiá-los.
Nada disso. Estou velho demais para as ilusões. Todos têm boas desculpas na
ponta da língua tanto para a derrota quanto para a vitória e, no fundo, ninguém
merece vencer nada, nunca, pois, no limite, a vitória é uma masturbação para
autistas. O escritor é só um cavalo no deserto, que esfrega o focinho nas
pedras, buscando, em vão, um gerânio escuro para mastigar. Antes eu pensava até
em suicídio, agora, a ideia me parece tão ridícula e retrógrada quanto a de
seguir vivendo. Não chafurdarei mais nesse tipo de lixo romântico. Deixo a
escolha entre vida e morte para Deus, que, afinal, tem poder suficiente para
tomar todas as decisões erradas que invariavelmente acaba tomando de fato.
Escrevo para reter, com as unhas que me restam, a alegria que me sobrou. Para
me demorar nas coisas sem gastá-las, ainda que, agindo assim, gaste a mim
mesmo. Não preciso do aval de ninguém para seguir escrevendo. Precisava do
dinheiro do concurso. Um bom dinheiro, aliás. Agora terei que resolver tudo com
meus agiotas. Os vivos me importam cada vez menos. Importam-me William
Faulkner, Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura. Vou escrever
até o fim, até que a literatura seja um espelho voltado para a parede. Suporto
qualquer tipo de emprego desgraçado que me ofereça o mínimo (William Faulkner,
Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura) para seguir escrevendo.
Suporto conviver com quaisquer ignorantes, facínoras, analfabetos, pederastas,
assassinos de velhinhas, vadias que não sabem andar em um salto agulha e
gerentes operacionais, para continuar escrevendo. No mais, estou me lixando
para o Marco Feliciano, a redução da maioridade penal, os direitos civis das
minorias, a androginia do Laerte, a cultura do estupro, ou as criancinhas que
passam fome à beira do Cururu-Mirim. Só a literatura me interessa. Só me
interessa escrever, e escrever para me acalmar. Assim como estou mais calmo, agora.
14.5.13
PEIXE JÚLIA
Leonardo Marona
julia bicalho mendes,
você é meu peixe boi,
você é meu peixe espada, você deve furar a bolha
e engolir, pois não há problema engolir um pouco,
o esgoto do mundo que é o que dá velocidade
e presença às nossas dores e alegrias terrenas,
o que faz as pessoas crerem que nos divertimos
ou que nos fechamos, como disse o seu pai,
porque o mundo é muito grande, mas não é tudo,
estamos suspensos por uma vontade de flutuar
um pouco sobre as lâminas de nossos pulmões,
portanto fure a bolha, meu peixe macio, meu girino
de coração ventoso, espie belo buraco da fechadura
e então sente o pé na porta, afine as serpentes do cu,
jogue-se porque jogar-se é para nós, que carregamos
o coração em cadeiras de rodas rumo a China Town.
não se esqueça, meu peixe martelo, de que os ventos
sempre sopram ao largo quando a casa é de passagem.
você é meu peixe espada, você deve furar a bolha
e engolir, pois não há problema engolir um pouco,
o esgoto do mundo que é o que dá velocidade
e presença às nossas dores e alegrias terrenas,
o que faz as pessoas crerem que nos divertimos
ou que nos fechamos, como disse o seu pai,
porque o mundo é muito grande, mas não é tudo,
estamos suspensos por uma vontade de flutuar
um pouco sobre as lâminas de nossos pulmões,
portanto fure a bolha, meu peixe macio, meu girino
de coração ventoso, espie belo buraco da fechadura
e então sente o pé na porta, afine as serpentes do cu,
jogue-se porque jogar-se é para nós, que carregamos
o coração em cadeiras de rodas rumo a China Town.
não se esqueça, meu peixe martelo, de que os ventos
sempre sopram ao largo quando a casa é de passagem.
12.5.13
AS IF WRITING A LETTER TO SELF
Ismar Tirelli Neto
– Como você
acorda?
O primeiro arranco de um corcel da linha 184.
À medida do azul, os pássaros cada vez mais veementes.
Lamenta distante a sirene discoidal.
– E o teu veneno?
Plax.
Sarro de noite sobre os móveis, os poemas.
Mas isto fará ternura depois.
Pôs-se uma estrela no meu olho preguiçoso.
– Você conseguiria descrever esse quarto sem
recorrer a escatologias?
Dificilmente. Havia aqui um objeto de altíssimo relevo,
uma edição de bolso das Confissões de Santo Agostinho.
Conseguia pressenti-la de todos os cantos da casa. Mas
tive que devolver para a Adriana, estava fazendo falta.
– Cantando sempre?
Deus proíba. Os vizinhos se revoltam.
Como poderiam saber (que estou no princípio de algo,
algo que não pode ser vivido em silêncio, algo que
precisa soar enquanto é queda)?
Cantando sempre, sim.
Mas isto fará ternura depois.
– Você está sozinho aí dentro?
Todas as respostas acima.
– Como você acorda?
Ao que parece, estou escrevendo sua biografia.
O primeiro arranco de um corcel da linha 184.
À medida do azul, os pássaros cada vez mais veementes.
Lamenta distante a sirene discoidal.
– E o teu veneno?
Plax.
Sarro de noite sobre os móveis, os poemas.
Mas isto fará ternura depois.
Pôs-se uma estrela no meu olho preguiçoso.
– Você conseguiria descrever esse quarto sem
recorrer a escatologias?
Dificilmente. Havia aqui um objeto de altíssimo relevo,
uma edição de bolso das Confissões de Santo Agostinho.
Conseguia pressenti-la de todos os cantos da casa. Mas
tive que devolver para a Adriana, estava fazendo falta.
– Cantando sempre?
Deus proíba. Os vizinhos se revoltam.
Como poderiam saber (que estou no princípio de algo,
algo que não pode ser vivido em silêncio, algo que
precisa soar enquanto é queda)?
Cantando sempre, sim.
Mas isto fará ternura depois.
– Você está sozinho aí dentro?
Todas as respostas acima.
– Como você acorda?
Ao que parece, estou escrevendo sua biografia.
(maio, 2010)
8.5.13
RISCO
Janina Daou
Se o teto cair e me carimbar no chão
deste lugar, tornará fóssil gerações de cimento.
Se o remédio
de nome mais feio estranhar a peculiaridade multicelular dos seus órgãos,
presos da caverna dos sentidos.
Se os dias
desistirem das vinte e quatro horas, renunciarão às semanas em nome da
impossibilidade de qualquer calendário, guia espiritual de um futuro promissor.
5.5.13
MORTE AO MEIO-DIA
Rui Belo
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol
Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol
Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.
3.5.13
CARTA AO(S) AMIGO(S)
Kátia Mello
zé,
hoje eu patinei no gelo. pela primeira vez. achava um pouco cafona no brasil, aqueles ringues de shopping, mas, de cafonice em cafonice, deixei de fazer um monte de coisa. cantava beatles ou algo do tipo em karokês – me sinto realmente ridícula por isso. devia ter cantado A majestade o Sabiá, Evidências, Pão de Mel, algum pagode brega dos anos 90. devia ter sido mais idiota. a gente tem um desespero tão louco pra ser adulto, isso começa na puberdade e, qdo vc é adulto de verdade, com rugas, problemas na coluna, dedos amarelos de nicotina e uma pilha de contas pra pagar, é um pouco dolorido enxergar q vc desperdiçou a chance de ser plenamente idiota qdo a vida te deu essa chance. mas nunca é tarde e não acho q não valha mais a pena ser babaca daquele jeito bonitinho. eu sou ingênua, eu sou por demais esperta, mas eu sou tão ingênua e antes isso me irritava, mas agora convivo bem com a ideia de q o mundo não precisa de mais maldade. a maldade, essa maldição de um milhão de gerações, aquela q dói na alma; tentemos combatê-la. quero ser idiota, precisamente idiota. quero tirar fotos fazendo careta e quero me perder, quero dar risada das desgraças. pq, de desgraça em desgraça, a gente se torna o q é. tem gente q se torna um desgraçado, inapto à graça do mundo, tem gente q se torna a própria graça. quero ser a própria graça.
patinar no gelo não é como andar na terra molhada depois da chuva ou comer fruta madura do pé, patinar no gelo não tem nada de bucólico pra mim, mas é o q temos pra hoje. e é divertido – não apenas patinar no gelo, mas enxergar a beleza de cada passo q a gente dá.
neste exato momento, se é possível descrever e compartilhar a sensação, vejo a vida tão gigante e tão linda e meu peito aperta. não faço a menor ideia de onde vem o aperto no peito, uma sensação ruim de má notícia, e ela tromba com o contentamento infinito q enche meu coração agora.
o mundo fica tão gigante qdo vc sai de casa. eu saí de casa duas vezes, a primeira qdo deixei monte alto e a segunda qdo deixei o brasil. mas perder casa foi uma vez só: qdo minha mãe morreu. não ter para quem voltar é a maior de todas as solidões. a vida tira, mas a vida dá. a gente toda aprende isso um dia.
eu tenho uma busca, zé, e ela diz respeito ao meu espírito. é terrível viver longe de quem a gente ama – mas o amor é tanto q a gente sabe q sempre vai poder voltar. pq os próprios amores passam a ser o nosso lar. e o mundo é tão grande, tão bonito, não faz sentido se fechar numa cidade só.
nada disso faz sentido, eu sei. mas o lance é q a vida está daora não porque alcançou a plenitude, mas pq agora eu tenho uma consciência limpa e indestrutível sobre a existência. e o q eu posso falar pra você sobre isso (q é apenas o q eu enxergo, um fragmento parcial e subjetivo da minha própria evolução) é q todos nós temos um espírito e q cada espírito está sujeito a uma série de aprendizados milimetricamente moldados sob medida, numa matemática passível de caber em derivadas. a gente tem q passar por divisões, subtrações, multiplicações e somas em busca do resultado. não devemos agredir ou evitar o sofrimento, devemos entender pra q ele serve. resolver conta por conta, uma a uma, sem pressa de calculadora ou preguiça de largá-la pela metade na descoberta de uma função.
foi vc quem lançou luz sobre essa questão perguntando, um dia, pq eu estava me submetendo a isso, por que eu parecia estar me purgando mudando pra cá. não estou me purgando. estou apenas resolvendo umas questões matemáticas da existência. e, a cada função q eu resolvo, me sinto mais feliz com o q vai ser o resultado dessa derivada. pq, de derivada em derivada, a gente chega a uma integral. e a integral é a parte q a vida atinge a plenitude.
a pressa de viver passou. a gente quer muito e quer pra ontem. isso só gera ansiedade. e a vida é feita de patinar no gelo. de ler um livro q esmaga seu coração como num acidente. de fazer um amigo seu parar de chorar ou de dividir um copo de cerveja e experiências de vida. de aprender a fazer pão só pra poder comer quentinho. de ouvir um som q só pode ser inspiração divina. de visitar lagos sulfurosos. de sentir saudade e ter certeza q tudo vai passar: a paisagem, a glória, a baía, o beco. o q eu vejo é horizonte.
muito amor,
k.
hoje eu patinei no gelo. pela primeira vez. achava um pouco cafona no brasil, aqueles ringues de shopping, mas, de cafonice em cafonice, deixei de fazer um monte de coisa. cantava beatles ou algo do tipo em karokês – me sinto realmente ridícula por isso. devia ter cantado A majestade o Sabiá, Evidências, Pão de Mel, algum pagode brega dos anos 90. devia ter sido mais idiota. a gente tem um desespero tão louco pra ser adulto, isso começa na puberdade e, qdo vc é adulto de verdade, com rugas, problemas na coluna, dedos amarelos de nicotina e uma pilha de contas pra pagar, é um pouco dolorido enxergar q vc desperdiçou a chance de ser plenamente idiota qdo a vida te deu essa chance. mas nunca é tarde e não acho q não valha mais a pena ser babaca daquele jeito bonitinho. eu sou ingênua, eu sou por demais esperta, mas eu sou tão ingênua e antes isso me irritava, mas agora convivo bem com a ideia de q o mundo não precisa de mais maldade. a maldade, essa maldição de um milhão de gerações, aquela q dói na alma; tentemos combatê-la. quero ser idiota, precisamente idiota. quero tirar fotos fazendo careta e quero me perder, quero dar risada das desgraças. pq, de desgraça em desgraça, a gente se torna o q é. tem gente q se torna um desgraçado, inapto à graça do mundo, tem gente q se torna a própria graça. quero ser a própria graça.
patinar no gelo não é como andar na terra molhada depois da chuva ou comer fruta madura do pé, patinar no gelo não tem nada de bucólico pra mim, mas é o q temos pra hoje. e é divertido – não apenas patinar no gelo, mas enxergar a beleza de cada passo q a gente dá.
neste exato momento, se é possível descrever e compartilhar a sensação, vejo a vida tão gigante e tão linda e meu peito aperta. não faço a menor ideia de onde vem o aperto no peito, uma sensação ruim de má notícia, e ela tromba com o contentamento infinito q enche meu coração agora.
o mundo fica tão gigante qdo vc sai de casa. eu saí de casa duas vezes, a primeira qdo deixei monte alto e a segunda qdo deixei o brasil. mas perder casa foi uma vez só: qdo minha mãe morreu. não ter para quem voltar é a maior de todas as solidões. a vida tira, mas a vida dá. a gente toda aprende isso um dia.
eu tenho uma busca, zé, e ela diz respeito ao meu espírito. é terrível viver longe de quem a gente ama – mas o amor é tanto q a gente sabe q sempre vai poder voltar. pq os próprios amores passam a ser o nosso lar. e o mundo é tão grande, tão bonito, não faz sentido se fechar numa cidade só.
nada disso faz sentido, eu sei. mas o lance é q a vida está daora não porque alcançou a plenitude, mas pq agora eu tenho uma consciência limpa e indestrutível sobre a existência. e o q eu posso falar pra você sobre isso (q é apenas o q eu enxergo, um fragmento parcial e subjetivo da minha própria evolução) é q todos nós temos um espírito e q cada espírito está sujeito a uma série de aprendizados milimetricamente moldados sob medida, numa matemática passível de caber em derivadas. a gente tem q passar por divisões, subtrações, multiplicações e somas em busca do resultado. não devemos agredir ou evitar o sofrimento, devemos entender pra q ele serve. resolver conta por conta, uma a uma, sem pressa de calculadora ou preguiça de largá-la pela metade na descoberta de uma função.
foi vc quem lançou luz sobre essa questão perguntando, um dia, pq eu estava me submetendo a isso, por que eu parecia estar me purgando mudando pra cá. não estou me purgando. estou apenas resolvendo umas questões matemáticas da existência. e, a cada função q eu resolvo, me sinto mais feliz com o q vai ser o resultado dessa derivada. pq, de derivada em derivada, a gente chega a uma integral. e a integral é a parte q a vida atinge a plenitude.
a pressa de viver passou. a gente quer muito e quer pra ontem. isso só gera ansiedade. e a vida é feita de patinar no gelo. de ler um livro q esmaga seu coração como num acidente. de fazer um amigo seu parar de chorar ou de dividir um copo de cerveja e experiências de vida. de aprender a fazer pão só pra poder comer quentinho. de ouvir um som q só pode ser inspiração divina. de visitar lagos sulfurosos. de sentir saudade e ter certeza q tudo vai passar: a paisagem, a glória, a baía, o beco. o q eu vejo é horizonte.
muito amor,
k.
2.5.13
UM BEIJO
Ana Cristina Cesar
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor.
28.4.13
NUBLU JAZZ FESTIVAL NOITE #2
Ana Paula Anderson
Começa com a amiga baterista que tem 4 bandas e dá carona até
o metrô contando histórias irresistíveis e de repente um palco com uma negona e três negões de pedir
em casamento. Que baixista. Que baterista. Bateristas que tocam de boca aberta
com a baba eventualmente escorrendo = amor. Entra japonês magrinho com um baixo
e vocoder. Negona veste óculos perolados e um cinto sadomaso sublime. Entram eletrônicos, bom também. Então borbulha
um gás e entra a banda Abolição e Dom Salvador, sorrindo. E Toni Tornado de camisa prateada canta Podscrê Amizades e *Um Quilo do Bom*, homenagem ao Sebastião. E chora. Plateia suada grudada e feliz. Na saída chuva e revezamento
solidário de guarda-chuvas. O ônibus enche de pessoas animadas gritando e
apitando, recém-saídas do Villa Country. Ao meu lado para um homem com
mochilinha do Grêmio
F.C. e guarda-chuva. Pergunto se ele quer que eu segure para
ele a mochilinha (estou sentada), ele aceita, agradece, diz que o guarda-chuva
não precisa porque está molhado e começa a reclamar “desse bando de maloqueiro buzinando no nosso
ouvido justo essa hora“. É tarde, ele trabalhou o dia todo, está
cansado, vencido, com pés molhados, em pé no busão e tanta raiva que não
consegue aturar a gritaria da alegria alheia, vai despejando palavrões, pesares
e dores e quando olho para cima para vê-lo sem dizer nada percebo que vem
pulando uma lágrima violenta. Ficamos em silêncio, constrangidos. Quando todos
descem, ao mesmo tempo, na Praça Ramos, ele pega de volta a mochilinha porque
já vagou cadeira e envergonhado me pede desculpas. Dou tchau, salto e ando mais
meia hora de chuva pensando nos dois negões que vi chorar na mesma noite, Toni
Tornado e o homem da mochilinha do Grêmio, um de emoção e o outro de
cansaço, tudo no meio de tanto sorriso. E amanhã tem mais, mesmo com o mundo acabando.
26.4.13
FUR
Matilde Campilho
com cara de Whitman
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer, sempre usando
o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso
foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha
foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black n' Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black n’ Decker enfiado no cinto.
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer, sempre usando
o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso
foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha
foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black n' Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black n’ Decker enfiado no cinto.
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
25.4.13
PAIXÃO, MORTE E 1a APARIÇÃO DE FRANKENSTEIN
Alberto Pimenta
como se sabe: frankenstein foi preso por denúncia,
já perto da fronteira leste, coisa de meia ho
ra a pé, apenas. foi revistado, farejado pelos cães,
algemado e depois transportado e apresentado à na
ção no decurso do telejornal. acusado de semear o
terror, frankenstein foi condenado por toda a nação,
embora não tenha chegado a ser condenado por um
tribunal regular. enquanto o julgamento era prepa
rado, frankenstein foi metido numa daquelas celas
hermeticamente isoladas, todas pintadas de branco
e perpetuamente mergulhada no silêncio e numa tez
artificial; celas donde um tipo como eu ou tu só
sai com os pés para a frente, ou então de pé, mas
nesse caso com a cabeça mole como fruta do chão.
frankenstein no entanto era um tipo mais forte que
eu ou tu. frankenstein aguentou dois anos de pri
são preventiva, sem um canário sequer que lhe fi
zesse companhia, pois as leis desta nação só permi
tem aos presos a companhia de um canário depois de
dois anos de bom comportamento. acerca do compor
tamento de frankenstein nada sei. a nação e o seu
jornal sabem tudo acerca do comportamento de fran
kenstein. e sabem também como frankenstein morreu.
eu não sei como frankenstein morreu. mas a nação
e o seu jornal (a « sua imagem ») sabem como frankenstein morreu.
corre agora o boato que o colapso do antigo
chefe da polícia foi causado pela aparição de fran
kenstein. mas quem garante que assim tenha sido?
bom, um tipo como frankenstein talvez. mas um tipo
como eu e tu que chances tem de aparecer depois
de morto? não, um tipo como eu e tu não sei que
chances tem depois de morto, para dizer a verdade, nesta nação
nem sei que chances tem depois de vivo, um tipo
como eu e tu, de resto era isso que frankenstein
não se cansava de dizer, todo o tempo, todo o tempo.
como se sabe: frankenstein foi preso por denúncia,
já perto da fronteira leste, coisa de meia ho
ra a pé, apenas. foi revistado, farejado pelos cães,
algemado e depois transportado e apresentado à na
ção no decurso do telejornal. acusado de semear o
terror, frankenstein foi condenado por toda a nação,
embora não tenha chegado a ser condenado por um
tribunal regular. enquanto o julgamento era prepa
rado, frankenstein foi metido numa daquelas celas
hermeticamente isoladas, todas pintadas de branco
e perpetuamente mergulhada no silêncio e numa tez
artificial; celas donde um tipo como eu ou tu só
sai com os pés para a frente, ou então de pé, mas
nesse caso com a cabeça mole como fruta do chão.
frankenstein no entanto era um tipo mais forte que
eu ou tu. frankenstein aguentou dois anos de pri
são preventiva, sem um canário sequer que lhe fi
zesse companhia, pois as leis desta nação só permi
tem aos presos a companhia de um canário depois de
dois anos de bom comportamento. acerca do compor
tamento de frankenstein nada sei. a nação e o seu
jornal sabem tudo acerca do comportamento de fran
kenstein. e sabem também como frankenstein morreu.
eu não sei como frankenstein morreu. mas a nação
e o seu jornal (a « sua imagem ») sabem como frankenstein morreu.
corre agora o boato que o colapso do antigo
chefe da polícia foi causado pela aparição de fran
kenstein. mas quem garante que assim tenha sido?
bom, um tipo como frankenstein talvez. mas um tipo
como eu e tu que chances tem de aparecer depois
de morto? não, um tipo como eu e tu não sei que
chances tem depois de morto, para dizer a verdade, nesta nação
nem sei que chances tem depois de vivo, um tipo
como eu e tu, de resto era isso que frankenstein
não se cansava de dizer, todo o tempo, todo o tempo.
24.4.13
DA ESPERA
Ingrid Bezerra
Este é um texto sobre o “delay” do universo. O atraso
nas respostas que precisas ter para viver dignamente. Um sim ou um não, uma
senha, aprovado ou reprovado no teste. Um chamado para um teste, ao menos. Você
acorda cedo com mil planos, abre o email, visita os sites de sempre e encontra
neles mil opções. Alguém te deixou uma mensagem para que faças um telefonema,
respondes, você liga, ninguém atende. Ou atende e fica de te mandar um email
especificando um trabalho para que possas executar mas as informações nunca
chegam. Tu precisas alterar a interface de um ambiente virtual porém não
recebes a senha. Marcam encontros contigo, chegas na hora marcada e esperas 70
minutos até descobrir que ninguém vem. Gente que cobra é um pé no saco mas é
sempre determinação que esperam de ti. “A vida está difícil para todos então
não se pode reclamar, insista”. E fazes mais telefonemas, disparas emails,
mensagens sem resposta. Se passaste a madrugada acordada e o sono é teu
maior inimigo às 7:30h, a cafeína ingerida desde as 8h quase te transforma em
um herói da Marvel às 11:30h. Corres pra descarregar a ansiedade em uma
modalidade esportiva na academia mais próxima. Voltas exausta e revês tuas
mensagens. Um contato qualquer na rede social te pergunta se está tudo bem, diz
que está correndo contra o tempo para entregar algum trabalho antes de sair
para o almoço procrastinado, respondes que acabaste de chegar do treino e estás
procurando uma atividade remunerada para executar. “Chegou da academia agora,
não tem que ir trabalhar... Vida boa, hein...” “Não! Está beirando o desespero
mas desculpa te incomodar aí, estás tão ocupado, não quero te atrasar. Um
beijo.” O dia continua, as horas se arrastam e a vida não para, apesar do quase
nada em que te encontras. Você não sabe se tem um emprego, se tem um amor, se
deve continuar procurando ou se já encontrou e esqueceram de te comunicar.
Verás mais um filme, escutarás outras músicas, tentarás mais contatos, até que
te empurrem de vez da beirinha do precipício. E talvez o fundo seja mesmo a
única forma de parar essa queda lenta e nauseante.
23.4.13
NARRAÇÃO DE UM HOMEM EM MAIO
Herberto Helder
Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atraves-
sado pelo movimento.
É a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atraves-
sado pelo movimento.
É a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
de outras coisas. com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
A própria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
A própria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores ou bichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Elas paravam completamente
como caçadores ou bichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo a boca, mexo os dedos, mexo a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão e harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão e harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
Assinar:
Postagens (Atom)