Alex Dimitrov
unicórnio lounge
3.1.14
UM POEMA DE RUI COIAS
Rui Coias
São os olhos que aproximam os lugares do coração.
Agora que regressamos é nisto que penso
enquanto fazemos sinais uns para os outros com as luzes
dos carros, na rápida estrada, ao anoitecer.
Olha-se devagar para a vida e sobretudo assim
damos conta dos silêncios,
dos nomes devolvidos ao tão de leve silêncio.
A casa vincada pela névoa, a
aldeia imobilizada ao passearmos em grupos,
o café que me conforma quando o recebo entre as mãos.
Como dizer que são estas as mais secretas regiões da alma
a que voltamos sempre
nos maiores frios de dezembro?
Se de repente dizem que estamos a uma eternidade
frágil dos dias inquietos,
cruzas uma palma da mão sobre a outra e olhas para as
unhas, rindo de quando em vez para mim, que fico tão feliz.
e no regresso, quando os sobressaltos se repetem
e anoitece nas estradas vazias e o mundo adormece,
há uma solidão que estremece as bermas e nos aflige debaixo da
língua, como uma chuva miudinha.
Como falar depois da tua inclinada casa a meu lado
e do recanto mais longínquo dos pinhais?
Como acreditar que o tempo não tratá aos olhos a maior
solidão
em que ficámos?
São os olhos que aproximam os lugares do coração.
Agora que regressamos é nisto que penso
enquanto fazemos sinais uns para os outros com as luzes
dos carros, na rápida estrada, ao anoitecer.
Olha-se devagar para a vida e sobretudo assim
damos conta dos silêncios,
dos nomes devolvidos ao tão de leve silêncio.
A casa vincada pela névoa, a
aldeia imobilizada ao passearmos em grupos,
o café que me conforma quando o recebo entre as mãos.
Como dizer que são estas as mais secretas regiões da alma
a que voltamos sempre
nos maiores frios de dezembro?
Se de repente dizem que estamos a uma eternidade
frágil dos dias inquietos,
cruzas uma palma da mão sobre a outra e olhas para as
unhas, rindo de quando em vez para mim, que fico tão feliz.
e no regresso, quando os sobressaltos se repetem
e anoitece nas estradas vazias e o mundo adormece,
há uma solidão que estremece as bermas e nos aflige debaixo da
língua, como uma chuva miudinha.
Como falar depois da tua inclinada casa a meu lado
e do recanto mais longínquo dos pinhais?
Como acreditar que o tempo não tratá aos olhos a maior
solidão
em que ficámos?
16.7.13
UM BALANÇO
Fábio Weintraub
do qual só restasse a trave
sem assentos
suspensos por corrente
sem crianças oscilando
de pernas abertas
em meio a risos e gritos
nem adultos
atrás empurrando
para frente
para o alto
cada vez mais
longe
mais forte
até o
crânio aberto entre cascalhos e bem-te-vis
do qual só restasse a trave
sem assentos
suspensos por corrente
sem crianças oscilando
de pernas abertas
em meio a risos e gritos
nem adultos
atrás empurrando
para frente
para o alto
cada vez mais
longe
mais forte
até o
crânio aberto entre cascalhos e bem-te-vis
12.7.13
LEATHER
Antônio LaCarne
todas as bruxarias que você construiu
despencam sobre o meu jeans culpado de tudo,
desabotoei a camisa & me pus sobre travessas de inox
tão verticais quanto o beijo que você morde & assopra,
aí sou a pessoa ferida mais legal do mundo,
nego a violência & as páginas de ménage à trois na internet,
mantenho o carão diante dos arbustos que você cuspiu,
o girassol de uma mão que me afaga as lágrimas,
rasgação de amor que não me protege das rugas,
os centímetros que fariam de mim
a pessoa mais sexualizada do universo.
peço um cigarro e você não tem,
eu percorro a existência da noite & me tranco em banheiros,
do bolso possuo as armadilhas lindinhas
que se resumem em uma, duas gramas da lucidez
pré-fabricada pouco depois dos dinossauros,
você também não me esquece,
critica o fato dessa intolerância esquizoafetiva
ser publicamente devorada nos livros que você não escreveu,
por isso morro de vontade.
28.5.13
PAISAGEM VOANDO PARA O ORGASMO
Leonardo Fróes
Trens sonolentos resfolegam
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destapam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara a nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o gato canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
de nossa servidão cotidiana.
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destapam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara a nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o gato canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
de nossa servidão cotidiana.
15.5.13
SETE PALMOS DEBAIXO DO CÉU
Tadeu Sarmento
Em literatura, o ressentimento é mais eficiente que a
imaginação – é o sal que tempera a gosto o laconismo, o raciocínio, até mesmo a
lírica. Um escritor que desconhece decepções é uma estátua que a tempestade não
aperfeiçoou com o chicote renitente das estações. Acabo de perder mais um
concurso literário. Coleciono este tipo de derrota há anos. Não que esta
coleção emita, para mim, qualquer juízo de valor acerca do que escrevo. São
dezesseis anos escrevendo quase que diariamente, sob o ruído sigiloso das noites,
até que do papel recenda o aroma sombrio da cinza fria. Não. Conheço com
exatidão minha envergadura, e sei o ponto exato do qual me relaciono com a
literatura contemporânea. No mais, é muito fácil inventar culpados e odiá-los.
Nada disso. Estou velho demais para as ilusões. Todos têm boas desculpas na
ponta da língua tanto para a derrota quanto para a vitória e, no fundo, ninguém
merece vencer nada, nunca, pois, no limite, a vitória é uma masturbação para
autistas. O escritor é só um cavalo no deserto, que esfrega o focinho nas
pedras, buscando, em vão, um gerânio escuro para mastigar. Antes eu pensava até
em suicídio, agora, a ideia me parece tão ridícula e retrógrada quanto a de
seguir vivendo. Não chafurdarei mais nesse tipo de lixo romântico. Deixo a
escolha entre vida e morte para Deus, que, afinal, tem poder suficiente para
tomar todas as decisões erradas que invariavelmente acaba tomando de fato.
Escrevo para reter, com as unhas que me restam, a alegria que me sobrou. Para
me demorar nas coisas sem gastá-las, ainda que, agindo assim, gaste a mim
mesmo. Não preciso do aval de ninguém para seguir escrevendo. Precisava do
dinheiro do concurso. Um bom dinheiro, aliás. Agora terei que resolver tudo com
meus agiotas. Os vivos me importam cada vez menos. Importam-me William
Faulkner, Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura. Vou escrever
até o fim, até que a literatura seja um espelho voltado para a parede. Suporto
qualquer tipo de emprego desgraçado que me ofereça o mínimo (William Faulkner,
Juan Carlos Onetti, Marlboro, Uísque, Cerveja Escura) para seguir escrevendo.
Suporto conviver com quaisquer ignorantes, facínoras, analfabetos, pederastas,
assassinos de velhinhas, vadias que não sabem andar em um salto agulha e
gerentes operacionais, para continuar escrevendo. No mais, estou me lixando
para o Marco Feliciano, a redução da maioridade penal, os direitos civis das
minorias, a androginia do Laerte, a cultura do estupro, ou as criancinhas que
passam fome à beira do Cururu-Mirim. Só a literatura me interessa. Só me
interessa escrever, e escrever para me acalmar. Assim como estou mais calmo, agora.
14.5.13
PEIXE JÚLIA
Leonardo Marona
julia bicalho mendes,
você é meu peixe boi,
você é meu peixe espada, você deve furar a bolha
e engolir, pois não há problema engolir um pouco,
o esgoto do mundo que é o que dá velocidade
e presença às nossas dores e alegrias terrenas,
o que faz as pessoas crerem que nos divertimos
ou que nos fechamos, como disse o seu pai,
porque o mundo é muito grande, mas não é tudo,
estamos suspensos por uma vontade de flutuar
um pouco sobre as lâminas de nossos pulmões,
portanto fure a bolha, meu peixe macio, meu girino
de coração ventoso, espie belo buraco da fechadura
e então sente o pé na porta, afine as serpentes do cu,
jogue-se porque jogar-se é para nós, que carregamos
o coração em cadeiras de rodas rumo a China Town.
não se esqueça, meu peixe martelo, de que os ventos
sempre sopram ao largo quando a casa é de passagem.
você é meu peixe espada, você deve furar a bolha
e engolir, pois não há problema engolir um pouco,
o esgoto do mundo que é o que dá velocidade
e presença às nossas dores e alegrias terrenas,
o que faz as pessoas crerem que nos divertimos
ou que nos fechamos, como disse o seu pai,
porque o mundo é muito grande, mas não é tudo,
estamos suspensos por uma vontade de flutuar
um pouco sobre as lâminas de nossos pulmões,
portanto fure a bolha, meu peixe macio, meu girino
de coração ventoso, espie belo buraco da fechadura
e então sente o pé na porta, afine as serpentes do cu,
jogue-se porque jogar-se é para nós, que carregamos
o coração em cadeiras de rodas rumo a China Town.
não se esqueça, meu peixe martelo, de que os ventos
sempre sopram ao largo quando a casa é de passagem.
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